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O Caminho Interior: Estar aberta ao Desconhecido -Parte 2 — O Caminho Começa

Sep 28
4 min read


Saí de Miami para viver uma experiência que, naquele momento, eu ainda não fazia ideia do quanto iria significar para mim. Voamos para Madri, na Espanha, passamos uma noite lá e, no dia seguinte, seguimos de trem para Sarria, onde encontramos o restante do grupo. Éramos 17 pessoas.

Quando chegamos a Sarria, descobrimos que nosso hotel ficava no alto de uma colina, no centro histórico da cidade. Não havia outra maneira de chegar até lá a não ser caminhando. Então, subimos com nossas malas e mochilas até o hotel. Talvez o Caminho já estivesse nos dando uma pequena amostra do que estava por vir.

Naquela noite, jantamos todos juntos em um lugar delicioso. Eu estava ansiosa para finalmente vivenciar o primeiro dia do Caminho. Não dormi muito bem. Um pouco pela ansiedade, um pouco pelo jet lag.

Acordamos cedo, tomamos café da manhã e depois nos reunimos para fazer um salmo que a organizadora havia pedido que fizéssemos juntos.

Logo depois, partimos.

Ainda estava escuro.

Foi uma emoção incrível. Eu me sentia tomada por tantas emoções ao mesmo tempo. Aos poucos, o sol começou a nascer e, conforme caminhávamos, íamos nos afastando da cidade de Sarria em direção a Portomarín.

Foi então que uma sensação que até hoje não sei explicar invadiu meu coração. Uma sensação de plenitude e uma vontade enorme de ficar em silêncio, apenas sentindo aquilo.

Antes de partir, eu havia preparado uma playlist de mantras, orações e músicas que tinham significado para mim. Eram três horas e meia de sons de elevação, escolhidos por mim e que faziam sentido para aquele momento.

Em determinado momento, senti vontade de colocar meus fones, ouvir aquela playlist e simplesmente ficar dentro do meu mundo.

Veio uma vontade de chorar de tanta emoção.

Eu sempre fui muito emotiva, mas muitas vezes seguro o choro em determinados momentos. E ali me vi fazendo isso novamente, segurando as minhas emoções, tentando conter o choro.

Até que, de repente, me liberei e disse a mim mesma:

“Você está aqui para isso. Para sentir. Para chorar sem restrições. Para liberar tudo, todas as emoções.”

Então me permiti sentir.

Eu estava ali. Presente. Sentindo a minha presença no Caminho, sem me preocupar com o que estava acontecendo na minha casa ou no mundo naquele momento.

Como eu havia escrito na carta para mim mesma antes de partir:

“No Caminho, a única coisa que tenho que fazer é caminhar.”

E era exatamente isso que eu estava fazendo.

Foram 6 horas e 25 minutos de caminhada naquele primeiro dia. Vinte e três quilômetros, com poucas paradas, apenas para ir ao banheiro, tomar um cafezinho e, às vezes, comer um doce ou alguma coisa salgada.

Em alguns momentos, percebi que estava seguindo o meu próprio ritmo, e veio a culpa.

Uma parte de mim queria olhar para trás, cuidar, ter certeza de que todos estavam bem. Mas então eu voltava ao meu propósito. Eu precisava me permitir fazer aquele Caminho para mim também.

Eu sempre me preocupo com todos e tento agradar e cuidar das pessoas por amor e carinho. Mas, naquele momento, comecei a perceber que seguir o meu próprio ritmo não significava deixar de amar ou me importar com ninguém.

Houve também momentos em que caminhei em silêncio. Um silêncio maravilhoso, compartilhado sem a necessidade de palavras. Apenas caminhar, estar presente e sentir.

Durante esse primeiro dia, passamos por lugares lindos. Era uma mistura de plantações, pequenos vilarejos e florestas. Tudo parecia fazer parte daquela experiência e daquele estado de presença que eu estava vivendo.

Depois de quase seis horas caminhando, veio a chuva.

Antes de sair, eu havia visto a previsão e, claro, senti um pouco de ansiedade. Mais uma vez, o Caminho parecia me mostrar que eu não precisava tentar controlar tudo.

E a chuva foi maravilhosa.

Não me atrapalhou em nada.

Bom... controlei a roupa que estava vestindo e o tênis que escolhi para me preparar para a chuva. Esse controle, confesso, não foi ruim!

Quando chegamos ao hotel, fizemos o check-in e me senti orgulhosa de mim mesma. Consegui terminar o primeiro dia ainda disposta. Lógico que estava cansada, mas fisicamente nada me incomodava. Naquele momento, eu só queria comer e descansar.

Aos poucos, todos foram chegando e compartilhando aquela mesma sensação de ter completado o primeiro dia.

Mais tarde, fui ver minha amiga que havia sofrido o AVC e que, naquele dia, tinha feito o Caminho acompanhada pela organizadora.

E ela estava feliz.

Feliz por também ter conseguido viver aquele primeiro dia do Caminho.

Aquilo começou a tocar alguma coisa dentro de mim.

Aquela era a mesma amiga que, poucos dias antes, havia despertado tantos medos e preocupações em mim. E agora eu a via ali, feliz por estar vivendo a experiência dela.

Aquele primeiro dia tinha terminado. Eu havia caminhado 23 quilômetros, chorado, sentido, ficado em silêncio, enfrentado a chuva e começado a experimentar algo que eu havia pedido antes mesmo de sair de casa: simplesmente viver o meu próprio Caminho.



 
 
 

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