O Caminho Interior: Estar Aberta ao Desconhecido” ou “O Caminho Interior: Abrindo-me ao Desconhecido - Parte 1 — Antes de Partir

A minha experiência com o Caminho começou antes mesmo de partir.
A organizadora do Caminho de Santiago pediu a todos os participantes que escrevessem uma carta sobre o que esperavam do Caminho. Então, alguns dias antes de partir, escrevi uma carta para mim mesma sobre o que eu esperava encontrar nessa experiência.
Naquela carta, escrevi que sabia que o Caminho seria um desafio físico, emocional, psicológico e espiritual. Eu estava acostumada a organizar retiros, criar experiências e cuidar para que tudo estivesse bem para os outros. Mas, dessa vez, queria viver algo diferente. Queria ser apenas uma participante, me permitir receber e ser levada pela experiência.
Escrevi também sobre uma parte de mim que eu já vinha observando há algum tempo: a minha necessidade de controlar, principalmente quando quero ajudar e cuidar das pessoas. Eu sei o quanto isso é cansativo e queria aprender a respirar, observar meus pensamentos e não deixar que essa necessidade tomasse conta de mim.
Uma frase que meu mentor sempre dizia estava muito presente:
“Be open to the unknown.”
Estar aberta ao desconhecido.
Era isso que eu queria experimentar. Caminhar em contato com a natureza, que, para mim, é uma das maiores representações de Deus, sentir a presença da Luz Divina e estar aberta ao que o Caminho quisesse me mostrar, ficar em silencio.
Eu havia me preparado fisicamente e sabia que encontraria momentos difíceis. Mas queria ir de coração aberto, observando meus sentimentos e pensamentos e lembrando que, naquele momento, eu não precisava organizar, resolver ou controlar nada.
Como escrevi naquela carta:
“No Caminho, a única coisa que tenho que fazer é caminhar.”
Mais ou menos três dias antes do meu embarque, recebi a notícia de que uma das minhas melhores amigas, que havia sofrido um AVC, participaria da viagem com o nosso grupo. A organizadora da viagem havia sentido um chamado para levá-la.
Minha primeira reação foi de susto.
Naquele momento, eu não conseguia entender exatamente tudo o que estava sentindo. Foi durante o Caminho que percebi que, por trás daquela reação, existiam medo e insegurança. Medo de que alguma coisa acontecesse com ela.
A organizadora me disse que eu não precisava me preocupar, que ela estaria 100% dedicada a acompanhá-la e cuidar dela durante a viagem.
Mas meu coração apertou.
Hoje consigo entender melhor por quê. Não era apenas a preocupação com uma amiga que eu amo. Existia também o medo de não estar ajudando, de não estar sendo responsável por ela, de não estar no controle daquela situação. Mil pensamentos começaram a passar pela minha cabeça sobre tudo o que poderia acontecer. E, naquele momento, eu não estava conseguindo pensar na experiência positiva que ela poderia ter.
Com calma e prestando atenção nos meus pensamentos, fui me acalmando e entregando a Deus as minhas preocupações.
E então me lembrei da carta que eu havia acabado de escrever. Era exatamente sobre isso que eu havia escrito poucos dias antes.
“Be open to the unknown.”
Imaginem o nó que isso causou dentro de mim.
Foi um daqueles momentos em que a gente perde o controle por alguns instantes e, depois, com calma, consegue respirar, voltar e repensar.
Hoje, olhando para trás, consigo enxergar aquilo de outra maneira.
A experiência que eu estava buscando no Caminho já havia começado.
Antes mesmo de sair de casa, meu propósito já estava sendo colocado à prova.


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